Esse texto foi escrito inspirado pelo filme “Sometimes in April”, que relata o genocídio de Ruanda.
Em abril começam as chuvas, fenômeno indispensável para a vida na terra. Quando a água cai, termina um ciclo que imediatamente se reinicia quando o sol volta a aparecer, fazendo-a evaporar de cada canto em que ela esteja exposta. Quem dera que pudesse ser assim com todas as barbáries perpetradas pelo homem.
Em abril lembramos de um fato onde ocorreu três tipos de chuva de uma só vez. Houve a chuva salgada das lágrimas. A outra, a chuva vermelha do sangue derramado. E claro, a chuva normal pra lavar toda a terra suja de guerra em Ruanda.
Esse massacre não foi culpa dos ruandeses. Não foi culpa de Tutsis ou Hutus. Essa guerra foi fruto de um sistema, o mesmo que nós aceitamos e muitas vezes defendemos como o mais justo e único viável para uma civilização. Armados de ganância, racismos e ilusões, os ditos “civilizadores” que se achavam muito evoluídos, foram os que verdadeiramente detonaram essa guerra. Em sua ânsia por novas terras, matéria-prima, mão-de-obra para gerar seus produtos, os europeus que arbitrariamente dividiram a terra e seus povos que há séculos a habitavam, lançaram as sementes de tanto ódio que ocasionou a tempestade em 1994.
Os imperialistas, que muitos gostam de admirar pelas suas sociedades avançadas, não fizeram nada para conter o conflito que eles tinham deflagrado ao favorecer um povo que possuía traços mais próximos dos europeus em detrimento de outros que tinham traços mais africanos. A única coisa que fizeram, foi salvar suas próprias pessoas, negando ajuda ao povo local, mesmo tendo plenas condições de ajudar. Típico de um sistema excludente e discriminatório em que se classificam pessoas pela aparência e que tem a mania de fazer com que algumas pessoas sejam melhores que outras, quando somos todos iguais.
Alega-se, em uma tentativa de explicar esse descaso, que na época discutia-se se o que acontecia era um genocídio ou não. Dezenas ou centenas de milhares de mortos todos os dias e ainda tinham dúvidas. A bem da verdade a intervenção acontece quando existem interesses burgueses por trás dos conflitos. Se houvessem empresas explorando as riquezas abundantes da África, no país o conflito teria sido impedido logo no início. Quando é bom para os negócios capitalistas, a intervenção é defendida, quando não interessa, é assunto único e exclusivo dos povos envolvidos.
Amarrado e puxado pelo laço das ilusões, o ser humano esquece que a terra não pertence a ninguém, e sim nós é que pertencemos a ela. Já que dela nascemos e pelas condições que ela nos dá, podemos viver, então dela somos filhos e todos os povos do mundo, a partir disso, são irmãos. Esse conceito burguês de individualismo que é levado ao extremo e tem como conseqüência o egoísmo de uns em compartilhar uma terra que é de todos, inevitavelmente leva a conflitos como esse. Ainda mais quando em nome de interesses mercantis, um povo, pela força das armas, subjuga outro.
Quanto vale uma vida humana? Muito pouco nesse sistema que transforma qualquer coisa, mesmo algo tão sagrado quanto uma vida, em mercadoria, que a qualquer momento pode ser descartada quando não é mais útil, quando aparece uma mais nova, ou quando não consegue mais gerar tanto capital como deveria, não importando se essa pessoa tem família ou pelo que ela terá que passar depois para sobreviver nessa selva capitalista, aonde o dinheiro é seu grande fundamento.
Todos os dias, em todos os cantos do mundo, nós podemos presenciar essas mesmas três chuvas. Quando superarmos os valores burgueses e reaprendermos valores como senso coletivo, bondade, solidariedade, respeito, responsabilidade, a única chuva que iremos ver será a chuva que nossa mãe maior nos manda, banhando o ambiente em harmonia, e essa chuva vai ser de alegria em um mundo que começaria a caminhar de verdade para uma civilização avançada.
Diogo Portugal Bastos Pinto

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