quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ossos

Estou cercado de ossos.
Ninguém os vê como tal, mas ainda assim o são.
Ossos que são despercebidos, mas todos temos em casa.
Ossos que representam nosso descaso com a vida.
Marrom é a cor dos ossos.
Guardo minhas roupas em um compartimento feito de ossos desta cor.
Ossos assim, sustentam meu sono todos os dias, quando repouso, cansado de viver uma vida que não posso escolher como viver.
Estou cercado de ossos.
Ossos da minha mãe, que sempre me deu tudo o que demais sagrado ela tinha para oferecer, embora não tenha sido sempre que eu tive a percepção para perceber esses presentes divinos.
Todos temos ossos em casa.
Será que gostamos de viver cercados de morte?
Não que ela seja ruim, para mim, é apenas uma passagem.
Mas será que gostamos de viver rodeados de coisas sem vida?
Nossos ossos um dia voltarão para onde eles vieram, Mas não deixamos os ossos de nossa mãe voltarem.
Nosso descaso com a vida é tão grande, que não percebemos que estamos cercados de coisas que não a possuem.
Nós gostamos de ossos.
Estou sentado em ossos enquanto escrevo.
Por que ficamos tão aterrorizados quando mexem com nossos ossos, mas não quando mexem com os ossos de nossa mãe?
Estou pensando em deixar esses ossos voltarem para onde devem.
Não deveria ser meu direito aprisioná-los aqui.
Será que eles anseiam por voltar?
Mas como poderemos viver sem ossos?
Melhor do que viver com ossos é viver rodeado de vida.
Vida que não conseguimos reconhecer, mas que é tão sagrada quanto a nossa.
Quem sabe um dia eu consigo viver sem ossos?
Quem sabe um dia a gente consegue viver rodeados de vida?
Quem sabe um dia saberemos respeitar os ossos?
Ossos de nossa sagrada mãe natureza que espera que alguns de seus filhos aprendam a usar o coração para senti-la.

Diogo

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